Coluna FACMA

MAIS QUE GRANDEZA, EXCELÊNCIA: o SIM de Maria e a Plenitude dos Tempos

Frei José Luís Leitão, OFMCap. Homilia na Festa da Natividade da Bem-aventurada Virgem Maria (8 de setembro de 2026) Caríssimos irmãos e irmãs,             Nesta noite de 8 de setembro de 2026 em que encerramos o nosso festejo em honra a Nossa Senhora dos Capuchinhos, eu quero aqui deste ambão pregar tão somente sobre a excelência de Nossa Senhora.             E para falar sobre a excelência de Nossa Senhora, começo primeiramente explicando o motivo de eu ter preferido a palavra excelência à palavra grandeza. Referente à palavra grandeza, percebe-se que é muito comum o uso dessa palavra entre nós para externar sentido negativo. Exemplo: fulano de tal tem espírito de grandeza. Que se quis dizer com o uso da palavra grandeza? Que essa pessoa é soberba, presunçosa. Ao contrário, a palavra excelência não me parece ser tão usual em nossos círculos de conversas diárias ou até mesmo em conferências como apropriação vocabular para exprimir sentido negativo com relação ao outro.             Por esse motivo, a palavra excelência me pareceu mais virtuosa, respeitosa, honrosa, e, consequentemente, mais propícia e oportuna do que a palavra grandeza para falar de Nossa Senhora como a mulher mais famosa da história da salvação a receber os verdadeiros e autênticos elogios e louvores, primeiramente de Deus, segundo de nós.             Dito isso, convém dizer de antemão que o simples esforço mental e reflexivo pela escolha de uma palavra em vez de outra para falar de Nossa Senhora nesta pregação, já mostra aí a excelência dela.             Ora, se a simples preferência vocabular já indica, sinaliza a excelência de Nossa Senhora, e isso pelo fato de escolhermos uma palavra que seja menos viciosa e mais virtuosa, e, portanto, que esteja à altura da pureza e dignidade dela, agora imaginemos nós com muito mais razão ainda essa excelência de Maria a partir do que diz a Sagrada Escritura a respeito dela, tanto em nível de profecia como no AT, quanto em nível de realização como no NT. E por que a Escritura? Porque neste Livro da vida, Maria Santíssima foi inicialmente pensada e contemplada pelo Altíssimo Deus.             Com efeito, na 1ª leitura da profecia de Miqueias, está dito que “de Belém há de sair aquele que dominará Israel; que sua origem vem de tempos remotos, desde os dias da eternidade. E que Deus deixará seu povo ao abandono, até ao tempo em que uma mãe der à luz” (cf. Mq.5,1).             Pergunta-se: quem há de sair de Belém e que vai dominar Israel e que sua origem vem desde a eternidade conforme a profecia de Miqueias no AT? O Evangelho, portanto o NT, responde: esse alguém é Jesus, o Deus conosco, chamado o Cristo”. Depois, e quem é essa mãe que vai dar à luz conforme a profecia de Miqueias no AT? O Evangelho igualmente proclamado, portanto o NT, responde: o nome dela é Maria; e além de dizer que é Maria diz ainda que ela é virgem.             Ora, onde está a excelência de Nossa Senhora nestas páginas da Sagrada Escritura? A resposta está aqui: Em ter sido profética e indiretamente contemplada no AT, e, por fim, em ter sido conhecida na sua existência histórica no povoado de Nazaré como a mãe do Salvador no NT.             Observa-se, lendo a profecia de Miqueias, no AT, à luz do NT, que o que era profecia sobre Maria (uma mãe dará à luz) se tornou real em Maria, que deu à luz o Salvador, e cuja origem vem desde a eternidade. Enfim, em Nossa Senhora o tempo futuro se atualiza, torna-se tempo presente.             E como é que em Maria o tempo futuro de uma Mãe que daria à luz a quem dominaria sobre Israel se torna tempo presente? A resposta está aqui: “Quando, tendo chegado a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de uma mulher” (cf. Gal. 4, 4-5). Ou seja, depois que Deus se deu a conhecer ao homem ao longo do tempo, processo esse que de Abraão até Jesus Cristo são mais de 3.000 mil anos, Deus quis agora de uma vez por todas se dar a conhecer de modo inconfundível, definitivo e pleno. E o que é que caracteriza essa plenitude dos tempos? Resposta: que Deus não falou mais por meio dos profetas, mas sim nestes últimos dias, por meio do Seu Filho. Ou seja, Deus não passou mais a se revelar, a dar-se a conhecer como antes pelos seus porta vozes criados ou pela brisa leve do mar ou pela sarça ardente inanimados, mas sim a partir do Deus feito homem, carne, existência. E para que isso acontecesse, entra em cena no tempo e na história a figura de Maria, porque nela se deu a Encarnação do Verbo de Deus. Daí a razão de ser da solenidade do Natal. Eis aí a excelência de Nossa Senhora!             No Magnificat, descobre-se também a excelência de Nossa Senhora em seu estado psicológico e espiritual. E digo psicológico e espiritual, porque há duas palavras no Magnificat que me fazem pensar nesse estado de harmonia pessoal dela: uma é a palavra alma e a outra é a palavra espírito. Diz Maria: “Minha alma engrandece o Senhor”, e depois “e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador” (Lc. 1, 46). Minha leitura sobre este trecho bíblico é a seguinte: a sua alma, isto é, o seu estado psicológico, afetivo, sentimental, emocional, volitivo (de querer), intelectivo engrandecia, enaltecia, colocava lá nas alturas o Senhor. De fato, em nenhum momento ela se engradeceu, se envaideceu, se colocou no pódio, se mostrou como o centro das atenções. Depois, e o seu espírito, isto é, o lado mais profundo do ser dela, da sua relação com Deus, que nunca se acaba, porque a razão de ser do espírito é de existir voltado para Deus, exultava totalmente em Deus, seu Salvador. O eu de Maria volta-se inteiramente para o Tu divino. Neste Senhor e Deus repousa, pois, o estado dela de prazer, de alegria, de confiança, de superação, de entendimento.