Coluna FACMA

ENTRE A BABEL E A FRATERNIDADE: o convite da FACMA para a Semana Acadêmica 2026

Confira a íntegra da mensagem de boas-vindas do Diretor Geral da Faculdade Católica do Maranhão, Prof. Me. Pe. Iran Gomes Brito, aos participantes da Semana Acadêmica. “PARA ONDE VAIS, HUMANIDADE? PERSPECTIVAS, DESAFIOS E UTOPIAS” Prof. Me. Pe. Iran Gomes BritoDiretor Geral da Faculdade Católica do Maranhão             Ao iniciarmos esta Semana Acadêmica da FACMA/2026, desejo, antes de tudo, manifestar, em nome da Direção-Geral da Faculdade Católica do Maranhão, a nossa gratidão a todos os que tornam possível esta Semana: à equipe organizadora, os conferencistas, às coordenações dos cursos, aos professores, aos estudantes e aos colaboradores das muitas frentes de serviços. De fato, um evento acadêmico nasce de muitas mãos, mas, sobretudo, de muitas inteligências que aceitam colocar-se juntas à procura do sentido daquilo que se propõe. A todos, nosso sincero agradecimento.             E o tema que nos reúne é este: “Para onde vais, humanidade? Perspectivas, desafios e utopias”. E mais do que o título de uma Semana Acadêmica, é uma interrogação dirigida ao nosso tempo: Para onde vais, humanidade? A pergunta pressupõe movimento. Estamos indo para algum lugar. Mas ela contém também uma inquietação: sabemos para onde estamos indo? Sabemos quem somos, para discernir para onde devemos ir?             O tempo que nos toca viver é paradoxal. Pois, nunca acumulamos tantos conhecimentos e, entretanto, como num atoleiro, continuamos diante das perguntas fundamentais. Ampliamos extraordinariamente nosso poder sobre o mundo, mas não necessariamente na mesma proporção nossa sabedoria para orientar esse poder. Criamos tecnologias capazes de aprender, calcular, prever e produzir; aproximamos continentes e aceleramos o tempo; multiplicamos conexões e informações. E, contudo, permanecem a solidão, a guerra, as desigualdades, a crise ambiental, relações fraturadas e a dificuldade de reconhecer o outro como alguém cuja existência me diz respeito.             É precisamente nessa encruzilhada que Filosofia e Teologia encontram uma responsabilidade comum. À Filosofia compete conservar viva a coragem da pergunta, sobretudo, quando a sociedade se acostuma às respostas fáceis. Cabe-lhe interrogar os fundamentos, desmascarar os reducionismos, discernir os conceitos de verdade, liberdade, justiça, felicidade e bem. À Teologia, por sua vez, compete contemplar o humano à luz do Mistério e recordar que a pergunta sobre o homem não se esclarece plenamente enquanto permanecer fechada à pergunta sobre Deus. E ambas são hoje convocadas a impedir que o ser humano seja reduzido a consumidor pelo mercado, a número pela burocracia, a dado pelos algoritmos, a instrumento pelas ideologias ou a objeto pela técnica.             Nesse sentido, o magistério recente da Igreja oferece-nos, uma provocação de grande atualidade. Vale lembrarmos que o Papa Francisco insistiu em recolocar a pessoa humana no centro, compreendendo-a não como indivíduo isolado, mas como ser de relações: relação consigo, com os outros, com a criação e com Deus. Daí a sua insistência na fraternidade, no cuidado, no encontro e na responsabilidade pela casa comum. Educar, para o Papa Francisco, significa também contribuir para uma nova humanidade, capaz de superar a cultura do descarte e reconstruir vínculos de fraternidade. O Papa Leão XIV, pra sua vez, aprofunda essa interpelação na Magnifica humanitas, recordando-nos que a dignidade da pessoa não é concedida pelo Estado, pelo mercado, pela tecnologia ou pelo reconhecimento social: pertence ao ser humano simplesmente porque ele existe, querido, criado e amado por Deus. E, justamente diante do extraordinário desenvolvimento tecnológico, recoloca a questão decisiva: o progresso torna a vida verdadeiramente mais humana?             É uma pergunta fundamental para esta Semana Acadêmica. Porque o grande desafio da nossa época não é construir máquinas cada vez mais semelhantes ao ser humano, mas impedir que o próprio ser humano passe a compreender-se à maneira das máquinas. Assim sendo, o Papa Leão XIV, recorda que nossa dignidade se manifesta na capacidade de refletir criticamente, escolher livremente, amar gratuitamente e estabelecer relações autênticas. E, retomando a Gaudium et Spes, sublinha três expressões fundamentais dessa dignidade: inteligência, consciência e liberdade. Eis, portanto, o horizonte no qual desejamos situar a nossa Semana Acadêmica. Quando perguntamos: “Para onde vais, humanidade?”, não queremos cultivar pessimismo nem alimentar ingenuidades. Queremos discernir.             Queremos olhar criticamente para nossas perspectivas, porque o futuro não está pronto à nossa espera: ele depende das escolhas que fazemos no presente. Queremos enfrentar nossos desafios, porque uma Faculdade Católica não pode refugiar-se numa torre de marfim enquanto homens e mulheres concretos sofrem, esperam, procuram sentido e lutam por dignidade. E queremos falar de utopias, não como fuga da realidade, mas como resistência à tentação de considerar inevitável tudo aquilo que desumaniza. A utopia autêntica não é negação da história, é a nossa capacidade de enxergar, dentro dela, possibilidades ainda não realizadas. Para o cristão, ela encontra sua expressão mais profunda na esperança, isto é, na certeza de que a história permanece aberta porque Deus continua agindo nela e convocando a liberdade humana à responsabilidade.             Por isso, é significativo que o Papa Leão XIV, apresente à humanidade hodierna duas imagens. Segundo ele, podemos construir uma nova Babel, fundada no poder, na eficiência e no domínio; ou podemos trabalhar pela construção de uma civilização na qual a técnica, a economia, a política e o conhecimento estejam efetivamente a serviço da pessoa e do bem comum. Entre a Babel e a fraternidade, entre o domínio e o cuidado, entre a indiferença e a responsabilidade, há uma decisão antropológica a ser tomada. E é precisamente por isso que devemos levantar a pergunta: Para onde vais, humanidade?             Perguntamos não como espectadores da história, mas como pessoas implicadas nela. Perguntamos porque acreditamos na razão e recusamos o obscurantismo. Perguntamos porque acreditamos na fé e recusamos uma razão fechada à transcendência. Perguntamos porque acreditamos na ciência, sem transformá-la em ídolo. Perguntamos porque acreditamos na técnica, sem entregar-lhe a consciência. Perguntamos, enfim, porque ainda acreditamos profundamente no ser humano e em Deus, que não desistiu do ser humano.             Que estes dias sejam, de uma verdadeira experiência universitária de pensamento, de diálogo e de discernimento. Espero que saiamos daqui compreendendo que o destino da humanidade não é apenas uma questão sobre o futuro. É uma responsabilidade no