FACULDADE CATÓLICA DO MARANHÃO

Entre urnas e ruínas: as fraturas das relações e o custo ético das eleições

ENTRE URNAS E RUÍNAS: AS FRATURAS DAS RELAÇÕES
Por Prof. Me. Iran Gomes Brito

As eleições transcorridas convidam-nos a uma reflexão que ultrapassa os resultados das urnas e alcança as contradições éticas de nossa sociedade. Em tempos de discursos inflamados, impressiona a distância entre as bandeiras publicamente defendidas por determinados candidatos e os valores efetivamente testemunhados em suas trajetórias. Proclama-se a defesa da família, da moralidade, da fé e da justiça, mas nem sempre essas convicções encontram correspondência na prática. Aristóteles compreendia a política como atividade orientada ao bem comum; entretanto, quando a retórica se emancipa da ética, a palavra pública corre o risco de converter-se em instrumento de sedução, e não de responsabilidade.

Mais preocupante, contudo, é perceber como a insuficiência de uma leitura histórica e sociológica da realidade favorece adesões políticas desprovidas de discernimento crítico. Em uma sociedade marcadamente por desigualdades estruturais, fragilidades educacionais e sofisticados mecanismos de manipulação simbólica, muitos eleitores acabam confundindo identificação emocional com consciência política. A reflexão de Pierre Bourdieu sobre o poder simbólico ajuda-nos a compreender como determinadas narrativas adquirem legitimidade mesmo quando suas contradições permanecem pouco examinadas. Desse modo, a política deixa de ser confrontação racional de projetos e transforma-se, não raramente, em devoção a personalidades, como se os candidatos fossem depositários de verdades absolutas.

À luz da teologia, semelhante comportamento exige uma interpelação ainda mais profunda. O Evangelho não autoriza a instrumentalização da fé para a sacralização de lideranças ou interesses partidários. Jesus Cristo, diante das estruturas de poder de seu tempo, denunciou precisamente a incoerência entre a aparência de justiça e a ausência de autenticidade moral. A sua advertência permanece incontornável: “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16). Quando convicções religiosas são utilizadas para justificar hostilidades, intolerâncias e rupturas fraternas, torna-se necessário perguntar se estamos verdadeiramente defendendo valores cristãos ou apenas revestindo preferências políticas de uma linguagem religiosa.

Talvez, a expressão mais dolorosa desse cenário esteja na deterioração dos vínculos familiares e comunitários. Pais e filhos se distanciam, irmãos interrompem o diálogo, amizades construídas durante décadas sucumbem diante de divergências eleitorais. E neste ponto, Hannah Arendt, ao reconhecer a pluralidade como condição fundamental da vida política, oferece-nos uma chave decisiva: a convivência democrática pressupõe a possibilidade de compartilhar o mundo com aqueles que pensam diferentemente. Quando a discordância se converte em hostilidade e o adversário passa a ser percebido como inimigo, não estamos apenas empobrecendo o debate público; estamos comprometendo os fundamentos humanos da própria democracia. Nenhuma preferência eleitoral deveria possuir maior dignidade que a pessoa humana.

As eleições, portanto, tornaram-se caras não somente pelos recursos financeiros que mobilizam, mas também pelo elevado custo afetivo, ético e social que podem produzir. Há uma ironia histórica particularmente amarga: enquanto lideranças políticas, após os embates, frequentemente recompõem alianças segundo as conveniências do poder, famílias permanecem divididas e amizades irremediavelmente feridas. É urgente recuperar a política como exercício de prudência, consciência histórica, responsabilidade moral e compromisso com o bem comum. Entretanto, se, ao final de uma eleição, contabilizamos a perda de irmãos, de amigos e de afetos, talvez seja necessário se perguntar, com inquietante honestidade: quem, de fato, saiu vencedor?

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