FACULDADE CATÓLICA DO MARANHÃO

8 DE MARÇO E O GÊNIO FEMININO: memória, atuação, e o legado da Dra. Beatriz Bom

COLUNA FACMA

| 8 DE MARÇO E O GÊNIO FEMININO: memória, atuação, e o legado da Dra. Beatriz Bom

08.Mar.2026

O Dia Internacional da Mulher é uma ocasião propícia não apenas para celebrar, mas também para recordar, na medida em que recordar (recordar) é justamente um fazer passar pelo coração. Não de qualquer modo, ou maneira, mas segundo a compreensão de que a memória é um ato formativo. Já Agostinho, nas Confissões, apresenta em que medida a memória contribui para a formação do eu. Na contemporaneidade, Paul Ricoeur seguirá na mesma linha de compreensão, apresentando a memória como caminho de reconhecimento de si e como caminho para a formação das identidades dos grupos.

Desse modo, também em nossa instituição a memória deve se tornar um elo formativo entre o ontem e o hoje. É nesse percurso formativo que podemos compreender quem somos e quais caminhos queremos ou não continuar trilhando. Em Ricoeur, a memória exige um exercício, na medida em que a recordação é também um convite à ação. Por isso, neste 8 de março, quero recordar a figura da Dra. Beatriz Bom, personagem pouco conhecida em nosso meio acadêmico atual, mas cuja trajetória marcou a história social e eclesial do Maranhão e a história acadêmica de nossa instituição.

Beatriz Bom nasceu em Treviso, na Itália, em 5 de dezembro de 1922. Era conhecida por duas grandes paixões: os estudos e a missão. Formou-se em Letras Antigas pela Universidade de Pádua, especializando-se em História Grega, e trabalhou durante anos como assistente do professor, historiador, filósofo, poeta e bibliotecário Aldo Ferrabino (1892–1972), primeiro em Pádua e depois em Roma. No entanto, o desejo missionário levou-a a novos horizontes. E em 1967, após formar-se em Medicina e Cirurgia pela Universidade de Roma, veio em missão ao Brasil.

Seu primeiro campo de atuação foi a região amazônica, na Ilha do Marajó, onde exerceu a medicina em Ponta de Pedras e Muaná, colaborando como missionária leiga com os padres jesuítas. Anos depois, ao conhecer um missionário comboniano que trabalhava no interior do Maranhão, decidiu vir para o estado. Em meio às dificuldades sanitárias da região, descobriu um caso de febre amarela em um acampamento de garimpeiros e insistiu junto às autoridades para que providências fossem tomadas. Sua intervenção contribuiu para evitar uma possível epidemia.

A notoriedade de seu trabalho espalhou-se pelo Maranhão e, posteriormente, ela passou a viver em São Luís. Foi nesse período que o então arcebispo da cidade, Dom Paulo Eduardo Andrade Ponte, convidou-a para lecionar História da Igreja e Filosofia no então Centro de Estudos Teológicos do Maranhão (CETEMA), momento em que sua atuação e comprometimento chegaram a essa instituição. Além de médica dedicada, Beatriz Bom era também estudiosa de teologia e de filosofia. Mais tarde retornou integralmente ao exercício da medicina, dedicando-se à visita aos doentes, à formação de enfermeiras e de agentes de cuidado, especialmente entre as Legionárias de Maria e outros leigos engajados na vida da Igreja.

Conhecida por sua atuação comprometida, dedicou-se também a escrever artigos sobre ética médica, teologia e questões sociais, publicados em jornais locais e apresentados em palestras e encontros formativos. Não por acaso, no dia 8 de março de 1997, Dia Internacional da Mulher, recebeu da então governadora do Maranhão, Roseana Sarney, a medalha ao mérito pelo desenvolvimento social e sanitário do estado. Foi um reconhecimento público de uma vida dedicada ao serviço, à ciência e à promoção da dignidade humana.

Dra. Beatriz viveu com simplicidade até sua morte, em 10 de agosto de 2004. Recordar a figura, a atuação e o comprometimento da Dra. Beatriz Bom neste dia tem um significado especial também para a nossa instituição. Em 2025, a Sociedade Maranhense de Cultura Superior celebrou 70 anos de atuação, fruto do sonho episcopal de Dom José Delgado de promover a cultura superior em nosso estado. Ao longo dessas décadas, incontáveis mulheres contribuíram para a construção dessa história como professoras, funcionárias, pesquisadoras, estudantes e colaboradoras de nossa missão educativa, e Beatriz Bom é uma dessas pioneiras.

São João Paulo II, em Mulieris Dignitatem, fala do chamado “gênio feminino”: aquela capacidade singular de perceber, cuidar, gerar vida e promover relações verdadeiramente humanas, que só as mulheres possuem. Longe da abstração, esse gênio quer manifestar concretamente a dedicação, a inteligência, a sensibilidade e a coragem de tantas mulheres que transformam a sociedade a partir de seu lugar próprio. A vida da Dra. Beatriz Bom é um exemplo desse gênio em ação. Uma mulher que uniu saber acadêmico, prática médica e compromisso social em favor dos mais vulneráveis e do desenvolvimento integral da vida humana.

Ao recordar sua memória neste 8 de março, queremos fazer passar ao coração de nossa instituição o legado da Dra. Beatriz e, por meio dela, o de tantas outras mulheres que construíram e que constroem a identidade desta instituição. Que a memória de mulheres como Beatriz Bom continue a inspirar nossa missão educativa e nosso compromisso com uma formação verdadeiramente integral, bem como a defesa do espaço, dos direitos, da dignidade e da vida integral que a vitalidade e a fecundidade da presença feminina, do gênio feminino, produzem em nossa comunidade acadêmica e sociedade.

2 comentários em “8 DE MARÇO E O GÊNIO FEMININO: memória, atuação, e o legado da Dra. Beatriz Bom”

  1. Excelente texto, prof. Hugo!
    Quanto orgulho de seu percurso, de sua sensibilidade!
    Homenagear as mulheres, em especial, da FACMA, através da Dra. Beatriz Bom, me encanta e emociona! Tive a honra de conhecê-la e testemunhar sua singularidade, sua dedicação, simplicidade diante de tantos conhecimentos!
    Parabéns!
    Gratidão!

    1. Grato querida professora!
      Valorizar e promover passa por recordar a memoria de tantas que fizeram e fazem o hoje da nossa instituição

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